Buenos Aires e El Humo

maio 3, 2008

Foi uma semana incrível. Buenos Aires é uma cidade que dispensa comentários, mas merece e muitos. As fotografias de um pouco do que eu vi, pode ser vistas clicando AQUI. Mas vou fazer diferente do que falar sobre as atrações turísticas, o que muitos guias podem fazer bem melhor.

Uma de minhas maiores preocupações quando viajo, é a escolha do equipamento fotográfico que vou levar. Dessa vez, por algumas recomendações e até para poder curtir um pouco mais tranqüilamente a cidade e caminhar sem peso, optei por levar apenas uma câmera compacta avançada digital. Excelente escolha. A portabilidade, os 12mpxls e os recursos avançados da câmera me deixaram felizes por ter feito esta opção, principalmente após andar 15Km no segundo dia (em Palermo). Então fica desde já a sugestão: compacta ou reflex com lentes curtas (ou uma discreta Leica, Contax, Nikon FM2, analógicas). B. A. é uma cidade como São Paulo e em poucas oportunidades haverá necessidade de uma teleobjetiva ou um burst violento. Vale a pena ser mais light, a la Bresson.

Pra começar a diversão, aqui vai a primeira aventura da viagem: desbravando a Calle Florida pela primeira vez.

Pois bem. Câmera (novinha) no bolso, muito entusiasmo e curiosidade, fomos eu e minha fiel escudeira Elaine, lado a lado, adentrar ao desconhecido. Saímos do Hotel, que ficava na Calle Tucumán, andamos dois quarteirões e lá estávamos na Calle Florida.

Calle Florida é uma das principais atrações turísticas e uma das mais conhecidas Ruas do centro de Buenos Aires. É muito parecida com os calçadões do centro de São Paulo, sem os milhares de camelôs, mais limpa, mais segura e com atrações imperdíveis, como o “shopping” Galerias Pacífico e uma unidade da Livraria El Ateneo (cuja loja da Av. Santa Fé é a maior e uma das mais lindas livrarias da América Latina).

E Calle Florida também é uma rua de acesso importante para os moradores e… centro é centro. Chegamos lá justamente às 17:30, horário do rush. Muita gente com pressa indo e vindo, correria, trombadas de ombros, carros nos cruzamentos… igualzinho a São Paulo. Mas OK, vamos encarar a boiada. Só que eu estava um pouco tenso. Era um lugar novo, pessoas diferentes, língua diferente e eu não sabia muito bem o que fazer, só queria andar.

Cinco minutos de caminhada com essa tensão inicial e ouço uma pequena gritaria. Continuo andando. 5 passos, 10 passos e vejo um maluco andando cambaleando com um copo de refrigerante na mão. Logo depois vejo o copo voando. Um segundo depois vejo o símbolo do Burger King bem perto e de um ângulo  que eu nunca  havia visto (com o céu de Buenos Aires ao fundo) e em outro segundo, estava o copo se espatifando no meu braço – e graças a um movimento rápido não foi na minha testa. Ao invés de cair de sola no cidadão, nos vingando de Caniggia e Maradona, achei graça e fiz desse evento meu libertador. Em minutos acabou a tensão e lá estava eu andando tranqüilamente na Florida como um legítimo… turista.

Agora vamos à história de “El Humo”.

Lá pelo final do terceiro dia, saímos para passear à noite em Puerto Madero. Quando descemos do táxi, meus olhos começaram a arder e havia uma névoa estranha e cheiro de fumaça no ar, como se houvesse uma fogueira próxima. Andamos por todo o porto, jantamos, passeamos, tomamos sorvete de doce de Leite do Freddo (explêndido, inigualável) e voltamos para o Hotel. Ligamos a TV e surpresa… Não era uma simples fumaça e sim “El Humo”, como noticiavam os jornais. Ora, el humo pode ser uma fumaça de cigarro… Sim, mas esta era diferente.

Trata-se – pois até hoje ainda está ocorrendo – de uma área de pastagem com cerca 70.000 hectares ardendo em chamas, muito próxima à capital, que levantou uma nuvem de fumaça, a qual cobriu a cidade de Buenos Aires e outras províncias próximas. Especula-se que se trataria de um protesto coordenado de agricultores contra o governo, entre outras coisas, mas o fato é que muitas pessoas morreram em acidentes, provocados pela baixa visibilidade nas rodovia, centenas foram hospitalizadas (sobretudo as que possuem problemas respiratórios), linhas de metrô e trem paralisadas, rodovias fechadas e provocou-se um dano ambiental incalculável. O que se via nos jornais locais era um combate heróico dos bombeiros e voluntários, usando ferramentas praticamente ineficazes diante da monstruosidade da queima e da falta de chuva, a demagogia do governo e o silêncio dos provocadores.

No 4º dia de viagem a fumaça deu uma trégua e passeamos sem problemas. Fizemos uma de nossas longas caminhadas, respirando o ar quase puro, bebendo cerveja Quilmes e comendo em um dos mais tradicionais (e estupidamente bom) restaurantes da cidade, o Chiquilin.

No 5º dia, em 18.05.08, el humo voltou com tudo. AQUI o link da BBC com a notícia do dia.

Foi o dia de nossa partida. O aeroporto de vôos domésticos, mais próximo do centro da cidade, havia sido fechado. A fumaça não havia atingido o aeroporto internacional, então pudemos seguir para o Brasil tranqüilamente – dentro do possível de tranqüilidade que se pode esperar de aeroportos e aviões na época em que vivemos.

Para quem quiser saber mais sobre o episódio que se segue na capital argentina, indico o meu amigo Google, que certamente irá fornecer muitos links.

Falando neles, começando a seção de dicas, vou mandar alguns bons links sobre BA na WEB:

Portal de turismo oficial – muita informação, guias, mapas, fotos, serviços, etc.: http://www.bue.gov.ar/home/

Outro bom guia online também em português: http://www.mibsasquerido.com.ar/BuenosAires1.htm 

Pequeno guia em pdf sobre a cidade em português: http://www.bue.gov.ar/imagenes_guias/guia_bsas_portugues.pdf

Compras de tickets para eventos na cidade: http://www.ticketek.com.ar/

Portal de Tango: http://www.tangodata.gov.ar/

Dicas para quem quer jogar golfe na cidade: http://www.argentour.com/pt/viagem_argentina/golfe_argentina.php

Não descarte perguntar para o google e dar uma boa olhada nas comunidades do Orkut, onde se soubermos garimpar, geralmente conseguimos boas dicas. Além disso, recomendo muito a compra de dois guias de bolso que usei o tempo todo. São pequenos, leves, baratos e excelentes:

1. Buenos Aires Encounter – um guia em inglês da Lonely Planet, bem completo, com informações curtas e importantes sobre praticamente tudo, inclusive hospedagem;

2. Buenos Aires Passo a Passo – escrito por um Argentino apaixonado pela cidade, Hugo Ibarzábal, com dicas preciosas sobre o melhor da cidade, tudo visto e provado e aprovado por ele mesmo, com sugestões de vários roteiros para cada parte da cidade, feitos para conhecer principalmente à pé, ônibus e metrô, mas que também podem ser feitos de trem, de taxi, etc.

O exemplar que tenho deste último é uma edição de 1995, que embora tenha mais de 10 anos está bem atual. Foi o que eu mais usei. Perfeito para o estilo andarilho que adotamos (mais de 50Km em 4 dias).

Não posso deixar de enumerar aqui, as dicas que recebi de meus amigos, que junto com algumas minhas, que vou relacionar brevemente, mas considere o que está aqui, como algo realmente imperdível:

Puerto Madero – para ir todos os dias, a qualquer hora, mas especialmente para passear à noite e jantar;  Museu Nacional de Belas Artes (lindo, com um acervo muito bom); Faculdade de Direito (atrás do Museu); Todo Bairro da Recoleta; Os parques e bosques de Palermo (inclusive o zoológico, muito bonito e bem cuidado); El Caminito (vá de manhã bem cedo, para sair até umas 10h, a luz é linda e evita-se o movimento exagerado); assistir pelo menos um bom show de tango; o Café Tortoni; o Trem de La Costa (para conhecer San Isidro e Tigre); Plaza de Mayo, Plaza Italia e todas as outras Plazas que puderem ser vistas (há muitas na cidade, uma mais bonita do que a outra).

E é claro as comidas: Sorveteria Freddo – muitas por toda cidade – meu preferido (e de 200.000 pessoas) é o de doce de leite; restaurantes Chiquilin e Pippo – tradicionalíssimos e baratos; Alfajores Havanna (também por toda cidade); doce de leite (o melhor do mundo); sanduíches de miga (um tipo de tostex com camadas de pão bem finas) – peça pelos “tostados”; e tudo o que você puder comer, acompanhado por seu par e por uma deliciosa cerveja Quilmes. Aliás, costumeiramente, lá não se bebe cerveja muito gelada. Não cometa a gafe de reclamar com o garçom (como vi acontecendo).

Troque seus reais no Banco de La Nacion Argentina (há um inclusive dentro do aeroporto, logo após passar a alfândega), é seguro e tem uma das melhores cotações e há vários pela cidade. Pague tudo em pesos (ou cartão de crédito), para fazer valer nossa moeda (a conversão local dos lojistas é extorsiva). Taxi é barato e tem às pencas. Use apenas “radio taxi”, de cores preto e amarelo. Taxistas particulares geralmente não são confiáveis (nós inclusive fomos “surrupiados” pelo único que pegamos). O metrô é feio e antigo, mas é confiável e vai para todo lugar. E cuidado com “ladrões de turistas”. Assim como estamos cansado de ver fazerem com os gringos no Brasil (especialmente na Bahia e Rio de Janeiro), os de Buenos Aires adoram cobrar 4x mais por alguma coisa (como o já referido taxista). Paguei 3 pesos pelo mesmo adaptador de tomadas (importante), que quiseram cobrar 20 em outro lugar. Em outro episódio, paguei 40 pesos ao invés de 70, por um case para minha câmera.

Outra dica boa que ninguém havia me falado: deixe o Free Shopping para a volta (saindo de lá e chegando aqui). Tanto o do Brasil como o da Argentina, que aliás é enorme e possui mais variedade de produtos e com preço mais acessíveis do que o daqui (no meu caso, de São Paulo), são muito melhores do que os da ida (saindo daqui e chegando lá). E deixe apenas para comprar as bebidas aqui, para não ficar com o inconveniente de ter que carregar garrafas pesadas. A diferença de valor é muito pouca.

Terminando o post, gostaria de agradecer aos meus colegas Diego Rousseaux (argentino legítimo) e Ignacio Aronovich, ambos fotógrafos brasileiros do primeiro escalão, minha prima Dri e o maridão Ronaldo Fuzza, meu amigo de infância Gui e tantos outros que deram ótimas dicas sobre a cidade, muitas das quais estou repassando agora.

Prepare seu tênis mais confortável, mochila com guias nas costas, afine o seu portunhol, câmera na mão e apaixone-se pela cidade, como nós todos.

Abraços,

Paoli.

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