Reflexões sobre Terry Richardson.

Recente notícia veículada no canal brasileiro GNT expõe o fotógrafo Terry Richardson como pilar de uma série de denúncias de exploração sexual a modelos por ele fotografadas. Pronto, foi a deixa para que milhares de comentários extremamente agressivos e julgamentos precoces se espalhassem por todos os blogs onde a notícia foi divulgada, em especial os brasileiros – impressionante (e vergonhoso) o baixíssimo nível dos comentários dos brasileiros.

Muitos desses comentários, façamos um parêntese, são lançados questionando-o como fotógrafo e as observações são sempre as mesmas: “Ah… o cara é uma droga de fotógrafo que só usa flash direto com uma camerazinha ridícula e faz fotos todas iguais (sic)”.

Primeira coisa… saia da escola de fotografia e torne-se um fotógrafo. Depois veja com olhos mais apurados o trabalho desse cara. Honestamente, ao invés de tecer comentários vergonhosos  (para si próprio) dessa natureza, é melhor limitar-se ao “gosto” ou “não gosto” do estilo dele.

Na minha opinião, não é difícil notar que trata-se de um fotógrafo excepcional. Ele deu a cara a tapa e fez o que fez, ou seja,  assim como muitos disseram, Terry USAVA sempre uma “camerazinha ridícula” (uma Canon G7 ou G9, se não me engano) e flash direto, para trabalhos ultra-profissionais e com isso fez muito, mas muito melhor do que muita gente que acha que sabe fotografar com equipamentos caros e pesados, de última geração. Algumas coisas beiram o pornô? Sim. Bom… E daí? Umas são boas, outras não tão boas, outras geniais. Assim somos nós, humanos. Não podemos produzir coisas excepcionais 100% de nosso tempo. Além do mais, o que hoje não é visto como bom, amanhã pode ser a melhor coisa do mundo. O que é imoral hoje, amanhã pode não ser mais. Tudo é uma questão de amadurecimento.

Em certa ocasião, fui criticado por alguns alunos de fotografia pois eu realizara uma série de fotos no minhocão (Elevado Costa e Silva) entre as 11 às 13h. “Esta é a pior luz, pois provoca sombras duras, estoura a luz, contrasta muito, blablabla…”. Eu disse: “sim queridinhos… Era exatamente o que eu estava querendo”.

É imperioso conhecer todas estas regras e teorias fantásticas e necessárias da fotografia. Mas, quer saber, aprenda-as. Decore-as. Mas QUEBRE AS REGRAS. Ou serás sempre um fotógrafo medíocre e igual a todos. Mais fácil é comprar um carimbo. E é exatamente o que esse cara fez, quebrou as regras.

Perceba-se que, nas recentes produções de Terry Richardson, houve uma mudança de estilo (não para melhor, mas apenas diferente). Não raro, vemos imagens dele fotografando com câmeras High Tech (no próprio Calendário Pirelli 2010). Ou seja, o que ele fez foi algo de muito expressivo. “Ei, olhe o que eu consigo fazer só com essa porcariazinha!”. E em seguida “Agora que já mostrei o que posso fazer só com aquela porcariazinha, vou mostrar o que posso fazer com o que todo mundo usa.” Sim, TODO O MUNDO usa tochas, geradores, butterflies, luzes caras e pesadas, rebatedores, etc… para trabalhos da alta moda. Que eu saiba, ninguém mais peitou a VOGUE com uma compacta. OK?

Ponto esclarecido, vamos à reflexão da questão. Sim, é uma reflexão. Não se trata de se defender um lado ou outro, tão somente de ABRIR A CABEÇA. Por favor, PENSEM. Deus nos deu cérebro para pensar. Não basta simplesmente ver, ouvir, ler, sentir determinada coisa e tomá-la como verdade absoluta, passando a agredir pessoas sem dedicar um tempo necessário à apuração dos fatos e motivações de ambas as partes. Escrever é algo que deixa marcas no mundo físico e espiritual. É fácil agredir alguém que está a milhares de quilômetros daqui. Mas quem garante que este mesmo alguém, por mais absurdo que possa parecer, não pode fazer alguma diferença em nossas vidas em determinado momento?

Vamos lá. Por um lado, é a velha história: todos conhecem Terry Richardson e sua forma de trabalho. Modelos que se dispõem a serem fotografadas por ele devem ter alguma noção do tipo de fotografia para a qual terão de posar, nuas ou semi-nuas, quase sempre. Sabem que ele gosta fotografar e de ser fotografado nu, pelas próprias modelos. Isso é público e notório! Há fotos dele espalhadas a granel pelo mundo todo, pela WEB, Youtube, Blogs… Não há como negar desconhecimento. Poderiam ter recusado o trabalho, como muitas fazem. E é claro, se a coisa esquentar demais, se passar dos limites, há a opção de se negar a fazer determinada coisa e simplesmente ir embora.

Por outro lado, é justificável que uma modelo jovem e inexperiente se sinta intimidada pela notoriedade do fotógrafo e pela possibilidade de ficarem queimadas no meio e não conseguir outros trabalhos (se abandonarem o set) – este, aliás, vim a descobrir depois de escrever este texto completo,  que foi o argumento principal das modelos (v. o link do Guardian abaixo). Não há como negar que isso aconteça, mas, novamente, é muito difícil, senão impossível, que uma modelo aceite ser  fotografada por Terry Richardson sem ter uma vaga idéia do que lhe será sugerido para fazer no set.

Minha opinião, sobre fotografar pessoas. O fotógrafo deve ter a sensibilidade para saber até onde pode ir com cada um, independente do tipo de pressão, seja pela sensualidade, seja pela expressividade, seja pela emotividade. No caso da sensualidade, se ele quer ousadia, precisa buscar pessoas ousadas e sempre estabelecer muito clararamente, ANTES de começar a fotografar, até onde se pode ir. Se quer extrair emoções de alguém, deve sentir o limite real  desse alguém e evitar ultrapassá-lo, para evitar danos. Passar dos limites é improvisar, e improvisos podem ou não dar certo. Nestes casos, não deu, pois estão aí as modelos acusando-o de exploração sexual, algo que poderia e deveria ter sido evitado.

Não é o primeiro, nem o centésimo, nem será o último caso dessa natureza a que se terá notícia no universo da fotografia. Logo, é preciso muita cautela antes de sair disparando balas na direção do fotógrafo e condená-lo sem conhecimento de causa. Tal comportamento é anti-ético? Por que? Em que país? Em que ambiente? Em que situação? Em que época? Quem pode afirmar com toda certeza o que é ou não ético? Ele fez mesmo o que dizem que fez?  Se fez, em que contexto e em que momento? Estavam sozinhos? Elas realmente  se sentiram ofendidas? Quem pode dizer?

Aqui a matéria publicada no Guardian, onde se tem um pouco mais do lado das modelos.

Seria Richardson o David Bailey dos anos 2000? Não é uma comparação justa, porque são pessoas completamente diferentes. Mas ambos já se viram nessa mesma situação outras vezes e sempre dão o que falar.

E falando em Bailey, encontrei uma ótima entrevista, onde ele conta muito de suas antigas peripécias. Imperdível.

Finalizando. Refletir, sempre. A condenação… deixem para o juiz! Aqueles que se julgam superiores hoje, aqueles que agridem, que ofendem, que xingam, que denigrem a imagem publicamente, podem se ver na mesma situação amanhã. E aí… como se portarão?

Abraços.

Add to FacebookAdd to DiggAdd to Del.icio.usAdd to StumbleuponAdd to RedditAdd to BlinklistAdd to TwitterAdd to TechnoratiAdd to FurlAdd to Newsvine

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: