Digipix e a volta da Censura.

Recentemente, tivemos o desprazer de acompanhar um episódio inusitado no meio fotográfico. A Digipix, uma das principais empresas no mercado de fotolivros do Brasil, recusou-se a imprimir um livro- portfolio com centenas de imagens do fotógrafo Gal Oppido, às vésperas de viajar a New York, para onde teve de ir sem o livro, que seria apresentado em galerias artísticas locais.

A recusa da empresa, conforme foi divulgado, se deu por considerar as imagens (nus artísticos) como “conteúdo indevido, ofensivo, pornográfico, obsceno, imoral e contra os bons costumes”, as quais poderiam acarretar “danos à imagem da empresa” e “problemas legais”.

Minha opinião, como fotógrafo, como empresário, como advogado: sendo ou não arte  (o que é) ou pornografia (o que não é), a Digipix errou feio. Provavelmente foi uma das piores decisões empresariais que tomou em toda sua história. Dentre todos os problemas conhecidos pelos usuários dos produtos da empresa, tais como: burocracia, atrasos, deficiências de comunicação com os usuários – principalmente de atendimento técnico qualificado aos profissionais, etc, agora os fotógrafos (e ilustradores, designers, publicitários, etc) terão de se preocupar com os vetos dos censores privados.

Centenas, senão milhares de fotógrafos, devem deixar de imprimir livros com eles, por causa do episódio. Eu mesmo, provavelmente. O Blurb hoje é minha primeira opção. Quem quer correr o risco de solicitar impressões e na última hora ser informado de que não será atendido, porque “o senhor X achou as imagens imorais”?

O caso tomou notoriedade, pois remete – com razão – à censura. O direito de expressão assegurado na Constituição foi de certa forma violado. Isso pegou mal para todos os que trabalham com imagem, arte e na imprensa, em geral. Sem falar nos direitos do fotógrafo Gal Oppido como consumidor, além de ter sofrido danos materiais e morais.

No que tange aos possíveis “problemas legais”, a meu ver não haveria qualquer dano para a empresa. O próprio contrato da Digipix, provavelmente (não me lembro, pois há tempos desisti do serviço) deve prever que o assunto impresso nos livros são de inteira responsabilidade do autor. E no caso, o que é pior, o livro seria de uso pessoal e exclusivo do autor. Quantas e quantas revistas contendo as piores espécies de baixaria são publicadas por mês no país, sem que haja qualquer problema legal às editoras e gráficas responsáveis?

Muito pior, aliás, é imprimir livros de usuários que usam fotos roubadas de outros fotógrafos – fato comum, como sabemos. Ok, para isso não há controle, mas seria uma preocupação realmente legítima.

Além disso, entendo que a Digipix, assim como qualquer laboratório fotográfico, é mera ferramenta de reprodução de uma cópia fotográfica e não pode ser responsabilizada por imprimir o que quer que seja. Caberia discussão, caso se tratasse de imagens obtidas por meios criminosos (imagens de pedofilia, por exemplo).

O fato foi um erro lamentável, uma gafe extremamente deselegante e desrespeitosa. A meu ver, as justificativas, ineptas, tornaram o problema ainda pior, inclusive comercialmente. A empresa deveria ter voltado atrás, admitido que errou e pedido desculpas publicamente. Desta forma, teria ganhado a simpatia do mercado, ao invés da imagem de autoritária, antipática e anti-profissional, que pode não se reverter tão cedo.

Apenas um update de última hora: primeiro um LINK do site Câmara Obscura, com o detalhamento completo do episódio, inclusive com as posições e justificativas do outro lado da moeda. Consta uma conversa de Sandra Bizutti –  que aliás sempre me atendeu bem em todas as vezes que precisei – com o fotógrafo Ignácio Aronovich, que teve a iniciativa de contatá-la para esclarecer os fatos – infelizmente, apenas foi mantida a postura da empresa.

Por fim, Sandra diz, em nome da empresa:  “nao acho que um fato pontual possa manchar o que fizemos em 5 anos”. Honestamente, pode sim e já manchou. Se a digipix tem a pretensão de atender a um mercado tão exigente como a dos profissionais – e aqueles “amadores” cujo conhecimento técnico e capacidade artística são iguais ou maiores do que daqueles – deve se portar como uma empresa de ponta.

Ainda no referido link, há a resposta do próprio Gal às justificativas, onde conclui ao final “Fica a questão: Jerôme Bosch, Leonardo da Vinci, Pablo Picasso, Gustav Klimt, Egon Schiele, Jeff Koons, Robert Mapplethorpe e meus alunos teriam livros impressos pela Digipix?”. É disso que se trata. Uma fatia do bolo foi jogada no lixo, sem ser provada.

É óbvio que o quadro pode ser atenuado ou até revertido. Para isso, as minhas sugestões são: mudar urgente o contrato de prestação de serviços (para garantir que um fato como este nunca mais se repetirá); resolver os conhecidos problemas que incomodam os clientes exigentes – alguns dos quais citei no terceiro parágrafo; principalmente, descer do salto e escutar sugestões como estas.

A empresa tem um enorme potencial. Mas em tempos de crise, vai ter de  esquecer um pouco a cultura interna e se adequar às necessidades do mercado, pois a competitividade no setor é imensa e é fácil sucumbir. Os donos da bola sabem do que estou falando. Se investiram e lutaram tanto para construir o que hoje é esta empresa, façam um favor a si próprios e cresçam, em todos os sentidos, para que não sejam parte das tristes estatísticas do nosso país.

Abraços,

Paoli.

4 respostas para Digipix e a volta da Censura.

  1. Pepe Mélega disse:

    Oi Paoli, gostei do texto por você expor sua opinião e sem agressividade com ocorreu na maior parte dos comentários relativos ao episódio (lamentável). Também concordo foi um decisão ruim, mas foi uma decisão baseada no contrato de prestação de serviço e ai que o contexto se modifica para mim. Por isso aplaudo seu comentário que se posicionou sem a agressão costumeira que ocorreu ao evento.
    Abs

  2. Luh disse:

    É lamentável tudo isso. Estou com um álbum parada na Digipix desde Setembro e a cada semana eles dão uma “desculpa” diferente. Estamos em dezembro e não consigo receber também! Quanta a censura… em que século mesmo estamos?

  3. Eduardo Rocha disse:

    Paoli, fui contratado para diagramar e produzir um álbum de fotos feitas por uma amiga fotógrafa, e a modelo queria dar de presente ao marido… nada mais exclusivo e pessoal, não é mesmo? Alías, exatamente o motivo de minha contratação: nem a fotógrafa, nem a modelo, queriam o trabalho exposto indevidamente. Pois acreditei que a DIGIPIX fosse a solução perfeita: uma empresa deste tamanho deveria se cuidar para evitar vazamentos. Pois quase não consegui entregar o serviço a tempo, pelas mesmas razões que Gal recebeu como justificativa. Se forem visto pelos púbicos, é pornografia e pronto. Não roda. Ainda ponderei, inutilmente, mencionando o uso não público, e me referindo não apenas às fotos de cunho artístico mas também ao uso profissional da fotografia, por exemplo, como fotos de cirurgia plástica tipos “antes e depois”, para mostrar o quanto era irracional a postura de censura da empresa. Felizmente, recorrendo a um site no exterior e uma entrega urgente, consegui atender no prazo, com qualidade muito superior à da DIGIPIX. Esta, NUNCA MAIS.

    • alepaoli disse:

      Edu, realmente lamentável. Eu tb tenho recorrido aos gringos. Demora, mas chega, no matter what. Honestamente, eu preferiria privilegiar as empresas brasileiras, mas o que podemos fazer se temos esse tipo de entraves? Um abraço. Sorte!

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