Câmeras top de linha. Elas valem o que custam?

Recentemente, em uma discussão sobre equipamento na lista fotocavalomania da fotógrafa Paula da Silva, da qual faço parte, houve um questionamento com relação à compra de uma nova câmera, em que a escolha ficaria entre dois lançamentos da Nikon, a D700 e a D90. A primeira custa 3x mais do que a segunda (aquela, $ 3.000 nos EUA).

 

O uso: fotografia de cavalos. A questão: vale a pena investir tão alto em um equipamento, sendo que de acordo com o ritmo de lançamentos, provavelmente terá de ser trocado em cerca de 2 anos? Detalhe, a fotógrafa precisa de dois corpos.

 

Fiz um breve comentário na lista a favor da D700, apontando as vantagens desta câmera (profissional de alto desempenho) sobre a outra (amadora, porém muito boa e com um recurso inovador de filmagem). Meu comentário fez com que ela por fim se decidisse (até agora) em favor da D90, pelo custo, pelo crop 1.5x (que é uma vantagem em muitas ocasiões) e pelo fantástico modo de filmagem.

 

Aqui um breve parêntese. A japonesada da Nikon acertou em cheio a japonesada da Canon, lançando a primeira SLR com recurso de filmagem em alta resolução do mercado – HD (1280 x 720 @ 24fps) -e saiu na frente, trazendo para este formato o que já era bem utilizado em compactas. Incrível! O fato de se poder utilizar o mesmo equipamento para fazer vídeos curtos com ótima qualidade, e ainda com as ótimas lentes Nikkor da marca, é uma cesta de 3 pontos no fim do jogo. Tanto é que a Canon lançou, apenas um ano depois da 40D, a 50D, com 15mpxl (5 a mais do que a última), pra concorrer com a Nikon D90. Fecho os parênteses.

 

Falou-se também, do conceito de que as câmeras top de linha seriam mais direcionadas ao fotojornalismo e que, considerando-se o custo-benefício, poderia-se dizer que as lentes seriam até mais importantes do que as próprias câmeras.

 

Promessa é dívida. Disse que iria e vou comentar aqui sobre a discussão das câmeras.

 

Em primeiro lugar, com relação às minhas imagens, não gosto da idéia (inevitável é claro) de se passarem alguns anos e eu perceber que poderia extrair muito mais das minhas imagens por terem sido captadas por um sensor de 1ª linha. Isso não vai mudar, pois a evolução é constante, logo é apenas uma lamentação minha e não um argumento. Penso assim, pois às vezes olho fotos antigas e percebo que uma imagem poderia ter sido 100% melhor se tivesse sido feita em cromo ao invés de negativo, ou com uma lente mais adequada que eu não tinha na época. Enfim, quanto a isso, c’est la vie. Não há o que se fazer, pois se pensarmos assim, não vamos mais produzir nada, sempre à espera de ter um equipamento melhor. Mas podemos buscar ter o melhor do atual, na medida do possível, ao menos para ter paz de espírito.

 

Mas voltando à realidade…

 

Hoje em dia, se compararmos as imagens feitas com uma 5D ou Mark III, com as feitas em uma 30D ou 40D, podemos ver uma nítida diferença (no caso da 30D gritante) em termos de qualidade de imagem, cor, nitidez e detalhamento.

 

Antes, resolvíamos a questão da qualidade de imagem com lentes, filmes e filtros de 1ª linha. Hoje, além de tudo isso, dependemos principalmente do sensor.

 

Além de diferenciados pela tecnologia utilizada ser CMOS ou CCD, os sensores podem ser Full Frame ou possuírem o fator de crop de 1.3, 1.5 ou 1.6x. Sem entrar em detalhes que serviriam para mais dois ou 3 posts (o nosso amigo google pode ajudar por enquanto a quem precisar), esta última diferença faz com que uma mesma lente, quando utilizada em câmeras full frame, funcione tal qual funcionaria em uma câmera analógica, enquanto que em uma câmera cujo sensor possua o fator de crop, tenha suas bordas cortadas – por causa do tamanho do sensor. Isso faz com que, por exemplo, uma lente de 50mm, utilizada em uma câmera com sensor de 1.6x de crop, funcione como uma 80mm (50 vezes 1.6). Ela não “vira” uma 80mm, apenas o quadro é fechado no assunto e portanto a lente funciona igual a uma 80mm em full frame – como se fossem colocadas tarjas pretas no quadro.

 

Ok. Sendo assim, na prática, a utilidade de um fator crop 1.5, 1.3 ou 1.6 para fotografia de campo (fotojornalismo, animais, etc) é que chega-se “mais perto” do assunto, virtualmente. Há uma outra discussão da vantagem do crop de se aproveitar o miolo da lente, ou seja, o “filé” da lente, já que as bordas (uma parte “menos boa” do vidro, que causa distorções) são cortadas, mas também é assunto para mais um post.

 

Outro argumento citado: para quem faz retratos e animais, é incomum (mas de forma alguma totalmente dispensável), o uso de grande angular, já que causa deformações na imagem (um cavalo torto e um rosto torto não são bonitos de serem mostrados), logo o crop ajudaria novamente. Sim, ajudaria, mas e quando se tem uma situação (ainda que rara nestes casos) onde se quer – por necessidade ou criatividade – o uso de uma 17mm? Se o fotógrafo estiver com uma câmera com crop 1.6x precisará de uma lente de 10mm!

 

Trata-se, portanto, da sub-utilização de um recurso – de uma limitação. Ora, quem quiser fazer retratos e fotografar cavalos, irá partir de uma 85mm ou 100mm e não de uma 17mm. 

 

Ok, para alguns talvez seja mais interessante ter o crop, mesmo perdendo wide angle. Mas no meu caso particularmente não, pois não fotografo apenas pessoas e animais. Nessas situações, prefiro ter que me aproximar mais (fisicamente) do assunto, para preencher o quadro (ao usar full frame), do que não poder enquadrar tudo que quero, em uma situação de pouco espaço (ao perder o wide angle pelo crop). Em fotografia documental, entre outros tantos exemplos que posso citar, a grande angular é instrumento precioso de trabalho.

 

Em resumo, prefiro câmeras com sensor full frame, pois posso utilizar a lente com seus recursos tais quais foram projetados pelo Sr. Canon, sem limitações.

 

Sim, há a opção de se comprar as lentes EF-S, no caso da Canon, que funcionam normalmente, compensando o fator de crop. Mas há outra desvantagem. Apesar de igualmente caras, estas lentes só podem ser utilizadas em câmeras COM crop. Do contrário, se compro lentes para full frame, posso utilizar em câmeras com ou sem fator de crop.

 

Por outro lado, um CMOS ou CCD full frame topo de linha, é algo a ser considerado, não como negócio e sim como um recurso ter melhores imagens nativas, além de confiabilidade, estabilidade e inclusive credibilidade (discutível, ok).

 

Ao contrário do que foi dito, não apenas no jornalismo é que se fazem necessárias e são usadas as câmeras top de linha.

 

Vou dar um exemplo. No caso da Canon, a MarkIII 1D foi projetada para fotojornalismo e custa metade do preço da 1Ds, que é uma câmera direcionada ao mercado publicitário e de moda. Ambas são parecidíssimas, contudo a primeira tem o fator de crop 1.3x e faz 10fps (fotos por segundo), em 10mpxl, enquanto que a outra faz 5fps em 21mpxl. São características bem diferentes para usos diferentes e ambas são top de linha.

 

Abaixo dessas temos a 5D, também para mercado publicitário e moda, e a 40D, que é 1/3 do preço da 5D. E a comparação das configurações é exatamente a mesma (5D full frame, 12mpxl, 3fps, boa para estúdio e 40D 12mpxl, crop 1.6, 6,5fps, “boa” para campo).

 

Enfim… Diz o ditado que “câmera boa é aquela que você acha boa”, certo? Hummm… Em partes. Para “fazer a fotografia”, talvez (contudo, iniciantes não possuem experiência suficiente para achar uma coisa boa ou não). Mas pensando no mercado comercial, sabemos que há uma tendência de bancos de imagens e agências utilizarem, entre outros critérios de seleção, o equipamento utilizado pelo fotógrafo. Ou seja, se você usar câmera X com tantos mpxl, OK, se usar câmera Y com menos mpxl, não serve. Péssimo não? Mas tenho visto muito disso.

 

Ainda que se considere que tais agências e bancos possam não ser exatamente “sérios” ao fazer este tipo de seleção (o que discordo em partes, pois tudo depende do uso da imagem), este é um problema que existe, queiramos ou não. E inevitavelmente, perde-se uma fatia do mercado por não estar utilizando o equipamento mínimo que este mercado exige.

 

O próprio Photoshelter, pelo que pude constatar hoje, limita as imagens em um mínimo de 4mpxl, mas entretanto, em sua lista de equipamentos recomendáveis, sugere 30D, 40D mas não mais a 20D. Já a Mark II, que tem o sensor equivalente ao da 20D, mas de 1ª linha – e também com 8.3mpxl – está na lista deles. Ou seja, mesmo as duas gerando imagens de 8.3mpxl, a MarkII é recomendada ao invés da 20D por ter um sensor de 1ª linha e teoricamente gerar imagens com mais qualidade.

 

Pensando como um diretor de arte, se eu tivesse em minhas mãos duas imagens praticamente idênticas, que fossem atender igualmente bem ao meu cliente, antes de escolher procuraria saber – e é o que se faz – como estas imagens foram capturadas. Sabendo que os dois fotógrafos são igualmente confiáveis e bons profissionais, e sabendo que uma imagem foi feita com uma Mark III 1D e outra com uma 30D, certamente eu optaria pela imagem da Mark III, se este fosse o critério de desempate. Isto porque eu saberia que este equipamento gerou um arquivo master com muito mais a oferecer ao profissional que irá trabalhar na imagem e um resultado final possivelmente melhor.

 

Estou falando, é claro, do formato SLR. Não é correto comparar SLR com 6×6 ou 4×5, ou com backs e câmeras de médio formato. Trata-se de um universo (maravilhoso) à parte.

 

Junte-se tudo isso aos fatos de que câmeras top de linha desvalorizam menos e demoram mais para serem substituídas no mercado, para que se tire a seguinte conclusão (ufa!):

 

Entre todos os argumentos que um profissional possa oferecer para escolher comprar uma câmera de $ 1000, no lugar de uma que custe $ 3000, os únicos que penso ser procedentes são:

 

1. “Não tenho dinheiro!” – Ok, fim de papo.

 

2. “Para o meu mercado de trabalho, não compensa, pois atendo bem 95% de todos meus clientes com a câmera mais barata” – Tudo bem, mas se ao longo do tempo os 5% restantes virarem 30%, isso será um problema mais caro do que a câmera, se não houver tempo de remediá-lo.

 

E… mulheres… não é ótimo comprar jóias? Mesmo que elas custem 30% a menos logo ao serem retiradas da loja? Pois jóias desvalorizam mais do que câmeras e nunca vi nenhuma que tire fotos em RAW. Há quem ache que isto seja um defeito meu, mas eu adoro a sensação de ter o melhor (ainda que muitas vezes eu não possa sentir esta sensação, por falta de “tempo” $$).

 

CONTUDO… Que deu a maior vontade de poder usar o modo de filmagem da D90, ah… isso deu muito!

 

LOGO… (e agora prometo que é o fim) se atualmente eu jogasse no time da Nikon (hoje eu jogo com as branquinhas da Canon), e tivesse dinheiro… mesmo que não valesse a pena financeiramente, compraria UMA DE CADA.

 

E quem antes tinha dúvidas -especialmente aquele alguém que quer comprar duas câmeras novas – que agora tenha mais ainda 😉

 

Abraços.

Anúncios

2 Responses to Câmeras top de linha. Elas valem o que custam?

  1. Simon Dias disse:

    Quando eu crescer, quero ser igual a vc..rsrs.
    esse post mudo minha maneira de ver as cameras..
    tadinha de minha 40D,
    Full freme ai vou eu…
    rsrs
    Obraço..

  2. Priscila disse:

    achei muito legal em partes me ajudou, mas no meu caso eu quero a 90D e não tenho grana, fim de papo kk

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s